22 de janeiro de 2014

A química escravidão do teste do silêncio barulhento


      Hoje eu conheci uma filha da escravidão, o nome dela é Ivone, mora em uma favela de Caxias, que ela disse o nome, mas que eu esqueci. O espaço em que ela mora é uma instituição que promove e trabalha na recuperação de viciados em cocaína, crack, maconha, álcool, a fila é gigantesca... Essa instituição é mais específica, pois prega a palavra de DEUS, não é como essas outras, “laicas”, que não possuem  acolhimento espiritual, além do que é oferecido. Nas palavras de Ivone, os que saem desta instituição, para a do acolhimento do (Senhor) são os mais nervosos.
   Confesso que tenho minhas ressalvas em relação a qualquer tipo de religião, em razão de não compreender algumas formas de imposições da maneira correta pela qual o ser humano “tem que viver e se comportar”. Eu já ia me esquecendo de outra personagem que estava junto de Ivone e de como eu as conheci, peguei o trem na estação de Nova Iguaçu, o rápido, aquele que vem do ponto final de JAPERI (Regiões da Baixada Fluminense), pois precisava resolver um problema no bairro do Riachuelo, zona norte do Rio de Janeiro, e para isso precisei soltar na estação de Deodoro para fazer a famigerada “baldeação” e pegar o trem parador, já havia algum tempo que não pegava trem naquela estação, então pedi ajuda para um dos funcionários da Super- Via, pra me dizer qual era a plataforma do trem parador. Fui para plataforma que ele me indicou, o trem estava parado, e o que é engraçado é que não mudou nada, as pessoas continuam esperando na parte de cima da estação para pegar o trem, pra não ficarem subindo e descendo as escadas a todo hora, porque na maioria das vezes os trens nunca param na plataforma indicada pelas plaquinhas, e as pessoas se veem obrigadas a esperar para ouvir a moça ou o moço da Super- Via anunciar qual plataforma que irá parar o trem. Entrei sentei e as vi, elas estavam uniformizadas com as camisetas da instituição. Theodora estava com a latinha para arrecadar o dinheiro (qualquer moeda), num dado momento da viagem o trem sacudiu além do esperado e eu ri, elas também, então deu-se o início a nossa conversa que terminou, quando soltei na estação de Riachuelo. Eu estava de óculos escuros, e Ivone disse que meu cabelo era lindo, eu agradeci, e nosso papo no início foi de cabelos, Ivone tinha um cabelo maltratado, com química relaxante, essa bendita ou maldita, que tem como o objetivo deixar os cabelos como se fossem de brancos, essa é minha opinião. Eu disse a ela que era difícil se acostumar com o próprio cabelo, pois fomos ensinadas a não gostarmos do nosso cabelo e de que o nosso cabelo é ruim, confesso que uso o termo cabelo duro, porque para mim é claro, e “não tampa o sol com a peneira”, e não gosto de usar a palavra crespo, porque me remete uma forma de amenizar e esconder o preconceito, como a palavra afrodescendente, que me incomoda, pois sinto segregação ao ouvi-la, eu achava que estava paranoica, porém eu tenho alguns amigos que se sentem incomodados, a sensação correta é a o de não pertencimento.
      Continuamos falando sobre cabelos, Theodora dizendo que fazia trança nagô, e que se eu precisasse era só ligar para ela, elas dizendo de como era difícil largar a química e os cabelos “fakes” e que era difícil para ela largar, percebi nesse instante que o problema de “largar a química” era muito maior, pois Ivone começou dizendo de como ela parou naquele lugar. Ela contou que começou usar drogas muito cedo, ela é uma jovem moça, alta, uma preta bonita, e começou nesse mundo fumando maconha, depois cocaína, heroína, diz ela que crack ela não usou, Theodora usou também as mesmas drogas, capixaba, estava no Rio há cinco anos, ela parecia estar mais centrada e calma, tanto que mal falou, quem precisava e falou foi Ivone. Ela descreveu como foi os caminhos estreitos e sinuosos de sua vida, disse que tinha três filhos, foi traficante, gerente de boca de fumo, seu marido que também era traficante, morrera com 18 tiros, “isso porque ele era muito querido e poderoso”, seus filhos já não moravam com ela estava com parentes, ela estando ainda “no mundo que não era o de Deus”. Traficava, pra todo tipo de gente, cheirava, ficou mais rica quando foi para Cabo Frio, se tornou gerente de boca de fumo, e também foi lá que percebeu que tinha que parar, ela tinha crianças ao seu redor que vendiam e também consumiam, e um dia se deu conta que estava cheirando ao lado de crianças, que podiam ser seus filhos, ela olhou ao seu redor, muito entorpecida não parou de cheirar, mas aquele instante tinha doído em sua alma. Foi então que ela resolveu parar, o marido já estava morto e seus filhos estavam com parentes, voltou para sua cidade natal, Caxias, porém não na casa de familiares, eles conseguiram colocá-la nessa Instituição, na verdade eu não sei como ela foi parar lá, ela não me disse essa parte, mas deduzo que fora assim que acontecera.
      Como ela tinha força e esperança, mas seus olhos estavam perdidos, “a tentação” estava ainda nela, tanto que Theodora, que é xará de minha falecida avó, adorei saber dessa feliz coincidência, pois acho o nome forte, porém minha vó não gostava, preferia Dora, mas eu a chamava de Theodora e contei para minha acompanhante de viagem, e ela achava mesma coisa, nome que impõe, disse ela, isso me mostrou o vigor e sua coragem de querer e lutar contra esse “Diabo”. Me falou que tinha pego minha querida Ivone, com um “cigarrinho do mal”, e pediu que jogasse fora, ela jogou. Num determinado momento, eu tirei os óculos, pois achava que precisava olhar nos olhos delas, respeito era o que elas precisavam, o não julgamento e principalmente ternura, com meu olhar.
      Pensei, como vou escrever esse artigo, o que sei sobre os temas sugeridos, e de novo veio o “Diabo” do teste, teste... Pelo qual preciso passar, não gosto de testes, mas somos obrigados a nos testar e deixar que os demais nos testem. Meu olhar... Não sei nada sobre os temas sugeridos, mas aí me dei conta que minhas queridas Ivone e Theodora estão numa batalha onde o barulho do bang bang, contra a química escravidão é o que elas menos querem ouvir, e de que todos nós estamos nos testes do nosso silêncio barulhento. Eu as desejei sorte e luz quando desci na estação de Riachuelo.

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